Sobre “A Primeira Arte” documentário do Brasil Paralelo – Opinião

A tentativa de marginalizar a música rítmica é patética. “Por ser desenvolvida no anseio popular, é facilmente adulterada”, é o que diz as entrelinhas do documentário, podendo causar danos ao cérebro humano (como se a música não pudesse ser alterada por inteira). Vale lembrar que a “música rítmica”, além de milenar, faz parte da história e do folclore dos povos indígenas e negros. A primeira manifestação musical humana registrada na pré-história, não foi a melodia e o ritmo. Dito isto, mesmo que subjetivamente, é o tanto quando infantil menosprezar uma característica musical por estar ligada a linguagem popular.

Alguns conceitos de Platão foram usados para justificar o “didatismo musical”, porém o seu melhor aluno, Aristóteles, tão importante quanto, não foi lembrado. Aristóteles impulsionou ideias subversivas a Platão. Para ele, a arte era despretensiosa, inútil. Enquanto para Platão, especificamente a música, era parte da educação. Nas devidas proporções os conceitos de Aristóteles teriam grande impacto no capitalismo hoje, já que o filosofo defendia a arte “por ela mesma” e não “para outros fins”. Talvez seria um argumento pertinente aos roteiristas do BP, uma vez que é possível notar a insistência da obra em provar que a música contemporânea é literalmente voltada para o lucro, o que também é estranho, pois o BP é capitalista e, como se não bastasse, apoiou o atual governo, este mesmo que aniquilou o Ministério da Cultura.

Também precisamos fazer alguns apontamentos pertinentes para elucidar a história de Pitágoras, já que o antigo sofista também foi citado no documentário. O BP ignorou as facetas ocultas e místicas dos pitagóricos, estes que tinham em Pitágoras um deus demiurgo. Há várias intepretações sobre a sua história, por exemplo, segundo Garbi (2006), todo o virtuosismo de Pitágoras, incluindo as questões musicais, foram absorvidos numa viagem misteriosa ao antigo Egito. Caso seja verdade, possivelmente temos em Pitágoras uma grande influência da cultura africana, o que não é confirmado. Porém, na época, sabe-se o quanto eram ricos artisticamente os egípcios e que muitos pensadores iam ter com eles nas escolas de mistérios.

Por fim, este é o Brasil Paralelo de sempre, um apanhado de retalhos históricos usados para defender uma ideologia. Isso prova o quando continua medíocre a visão conservadora desses meninos. Visão cujo ápice está enraizado em Olavo de Carvalho. Visão que coloca o conservadorismo brasileiro num déjà-vu irracional, onde as coisas velhas são melhores que as novas. É preciso entender que as músicas tocadas nas comunidades e favelas existem a partir de uma realidade, a questão é: como mudar esta realidade? Fato é que “cultura” não se aprende, se vive. A música se constrói de dentro para fora e não de fora para dentro. Concordamos que a qualidade da música brasileira precisa melhorar, mas nem toda a música precisa ser um livro de gramática. Precisamos de uma didática inclusiva, onde as questões sociais precisam estar presentes, em todos os sentidos, em todas as artes.

Fontes de Estudo:
As grandes ideias de todos os tempos “Filosofia 1.Kim, Douglas – DK Londres/Globo (São Paulo, 2016. p. 26)”.
Gilberto Geraldo Garbi (2006). A Rainha das Ciências. Editora Livraria da Fisica. p. 25.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução: Pietro Nassetti. Coleção A obra prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2004.
SANTORO, Fernando. Arte no Pensamento de Aristóteles. Vitória: Museu Vale do Rio Doce, 2006, p 78.

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