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Entre arte e fé: obra inspirada na Última Ceia provoca protestos e acusações de censura na principal bienal da Índia

Pouco tempo depois de ser inaugurada, ainda em dezembro, a Kochi-Muziris Biennale, considerada o principal evento de artes visuais da Índia, teve suas atividades suspensas de forma provisória. A decisão foi motivada por atos de protesto organizados por segmentos cristãos, desencadeados pela exibição de uma pintura que dialogava visualmente com o imaginário de “A Última Ceia”. Assinada pelo artista Tom Vattakuzhy, a obra rapidamente se tornou alvo de críticas severas por parte de lideranças religiosas da região, provocando ampla repercussão pública.

Embora associada à bienal, a pintura não integrava a mostra curatorial principal, intitulada For the Time Being. Ela fazia parte de uma exposição paralela e recorrente chamada EDAM, igualmente promovida pela Fundação Kochi Biennale. Essa iniciativa busca dar visibilidade a produções artísticas de criadores e coletivos estabelecidos no estado de Kerala, no sul do país. A EDAM acontece de forma descentralizada, ocupando diversos pontos da cidade, e o trabalho de Vattakuzhy estava instalado no Garden Convention Centre, espaço localizado a curta distância do núcleo central do evento.

A forte reação ao trabalho artístico torna-se mais compreensível quando se observa o perfil religioso de Kerala. O estado concentra a maior comunidade cristã da Índia, estimada em cerca de seis milhões de fiéis, número que corresponde a aproximadamente 18% da população local. Essa expressiva presença está ligada à trajetória histórica da região como importante entreposto comercial com o Oriente Médio e como porta de entrada de missionários e comerciantes europeus, especialmente portugueses, britânicos e holandeses. Soma-se a isso a tradição religiosa que atribui ao apóstolo Tomé a introdução do cristianismo no território, por volta do ano 52 da era cristã.

As críticas ganharam força nas redes sociais e em manifestações institucionais. Biju Josey Karumanchery, secretário da Associação Católica Latina de Kerala, declarou publicamente que a pintura representava uma afronta à fé cristã. Ele também questionou o emprego de recursos públicos, fundamentais para a realização da bienal, em uma obra considerada ofensiva. Posições semelhantes foram expressas pela Igreja Siro-Malabar, conforme noticiado pelo portal indiano Clarion. Em correspondência oficial encaminhada às autoridades, o Conselho Católico Latino de Kerala classificou o trabalho como uma interpretação inadequada e distorcida da Última Ceia, solicitando sua retirada do espaço expositivo.

Em resposta às acusações, Tom Vattakuzhy afirmou não ter tido qualquer intenção de desrespeitar crenças religiosas. O artista ressaltou que cresceu em um ambiente cristão e que grande parte de sua produção dialoga com princípios humanistas associados a essa tradição. Segundo ele, a pintura contestada se insere nesse percurso reflexivo e não constitui uma deformação do episódio bíblico, como sugeriram seus críticos. A manifestação do artista foi divulgada pelo jornal indiano de língua inglesa The Hindu.

De acordo com Vattakuzhy, a origem conceitual da pintura remonta a um texto teatral assinado pelo dramaturgo C. Gopan, natural de Kerala. A obra estabelece um diálogo direto com um poema que revisita a história de Mata Hari, dançarina holandesa executada pelo Estado francês durante a Primeira Guerra, acusada de espionagem em favor da Alemanha. O artista ressaltou que esse encadeamento de referências literárias e históricas foi decisivo para a elaboração do sentido simbólico presente em sua criação.

Em meio às críticas e pressões públicas, os curadores da mostra EDAM, K. M. Madhusudhanan e Aishwarya Suresh, ao lado do presidente da bienal, Bose Krishnamachari, posicionaram-se firmemente em defesa da manutenção da obra em exibição. Em declaração conjunta, afirmaram que a Fundação Kochi Biennale não atenderia às demandas pela retirada da pintura, por considerar que tal iniciativa representaria um precedente de censura artística. A instituição informou ainda que a reabertura das exposições estava prevista para o dia 2 de janeiro, embora, à época do comunicado, não houvesse confirmação oficial de que essa retomada já tivesse ocorrido.

Referências

ARTNEWS. At India’s Top Biennial, a Painting Referencing ‘The Last Supper’ Sparks Protests and Backlash. Disponível em: https://www.artnews.com. Acesso em: 4 jan. 2026.

THE HINDU. Artist responds to controversy over artwork at Kochi Biennale. Disponível em: https://www.thehindu.com. Acesso em: 4 jan. 2026.

CLARION INDIA. Christian groups protest artwork at Kochi Biennale. Disponível em: https://www.clarionindia.net. Acesso em: 4 jan. 2026.

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