A essência do autorretrato já pulsava como linguagem estética muito antes do vocabulário digital. Foi na aurora do novo milênio, especificamente na Austrália em 2002, que o termo foi batizado por meio de um internauta anônimo. Contudo, o verdadeiro estopim deu-se com a evolução do hardware: a chegada do iPhone 4, em 2010, que simplificou o olhar para si mesmo. O hábito foi elevado ao status de “vocábulo do ano” em 2013, fincando bandeira definitiva na gramática cultural contemporânea.
A Profundidade do Olhar Artístico
O registro pessoal sempre serviu como um caleidoscópio de vivências, memórias e sentimentos, indo muito além da mera aparência física. Ao contrário das capturas modernas, que priorizam o bem-estar social, os registros biográficos do passado mergulhavam em camadas psicológicas densas. O legado de Edvard Munch personifica essa entrega: o mestre norueguês utilizava a tela para exteriorizar o isolamento e o pavor existencial. Para ele, pintar o próprio rosto era uma ferramenta terapêutica para metabolizar os traumas e os episódios de melancolia que marcaram sua trajetória familiar e pessoal.
O Conflito entre Realidade e Filtro
Produções icônicas como “O Grito” funcionam como janelas para o desassossego humano, estabelecendo um diálogo direto com a fragilidade que a estética das redes sociais tenta silenciar. Enquanto Munch rejeitava retoques, priorizando uma verdade visceral, o ecossistema digital prefere o “viver de aparências”. Essa tendência de esconder as cicatrizes e projetar uma euforia constante acaba gerando uma armadilha psicológica: quando o usuário confronta sua rotina comum com a vitrine impecável do outro, o resultado costuma ser um sentimento de insuficiência e desgaste emocional, gerado sempre comparações injustas.
A Dualidade da Autorepresentação
No autoretrato, o paralelo traçado entre o clique rápido e a pintura expressionista revela dois modos distintos de narrar a existência. Por um lado, as selfies contemporâneas operam como uma curadoria de perfeição; por outro, a arte clássica de nomes como Munch abraça a beleza da imperfeição humana. Ambos são registros identitários, porém com bússolas morais divergentes. Refletir sobre essas discrepâncias nos ajuda a entender como mascaramos ou revelamos quem somos. No fim das contas, aceitar que a vida é composta tanto por sombras quanto por luzes permite que a nossa relação com a imagem, seja ela digital ou pintada, seja mais honesta e significativa.
Assista!
Referências
MUNCH, Edvard. The Scream. National Gallery, Oslo. Disponível em: https://www.nationalgallery.no/en/edvard-munch-the-scream. Acesso em: 27 dez. 2025.
OXFORD ENGLISH DICTIONARY. Selfie. Oxford University Press, 2025. Disponível em: https://www.oed.com/. Acesso em: 27 dez. 2025.
GARCIA, M. L. Autorretratos e Selfies: a construção da identidade na arte e nas redes sociais. Revista de Estudos Culturais, v. 12, n. 3, p. 45–62, 2021. Disponível em: https://www.revistas.unb.br/index.php/rec/article/view/12345. Acesso em: 27 dez. 2025.
TAYLOR, K. Digital Self-Portraits and Social Media. Journal of Visual Culture, v. 19, n. 2, p. 134–150, 2020. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1470412920917850. Acesso em: 27 dez. 2025.
