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DIGITAR UM PROMPT TE TORNA ARTISTA OU APENAS UM CLIENTE DE ALGORITMOS?

A discussão sobre se a criação de imagens através de inteligência artificial pode ser considerada arte é um dos debates mais complexos da atualidade, dividindo opiniões entre a tecnofobia e o entusiasmo digital. Quando uma pessoa escreve um comando, conhecido tecnicamente como prompt, para que um sistema gere uma imagem, surge a dúvida se ela está atuando como um artista ou apenas como um operador de uma ferramenta de síntese. Para entender essa questão, é preciso olhar para a história da tecnologia e para o que define o ato artístico, indo além da simples execução manual de uma obra, mas sem ignorar o valor do trabalho humano.

O argumento principal de quem defende que o prompter não é um artista baseia-se na ideia de terceirização da execução. Nessa visão, pedir para uma inteligência artificial criar uma imagem seria comparável a encomendar uma pizza ou solicitar um quadro a um pintor contratado: você escolhe os ingredientes ou o tema, mas não é quem cozinha ou pinta. Esse ponto de vista ganha uma defesa teórica robusta quando analisamos o pensamento do crítico e poeta brasileiro Ferreira Gullar. Em sua análise sobre a produção artística, Gullar argumenta que a arte reside fundamentalmente no “fazer”, ou seja, no processo trabalhoso de transformação da matéria e não apenas na concepção da ideia. Para ele, a arte exige o domínio técnico e o confronto direto do artista com o material, criticando a facilidade da arte puramente conceitual onde a execução é secundária ou inexistente (GULLAR, 2007).

Sob a ótica de Gullar, a geração de imagens por IA enfrentaria uma barreira de legitimação. Se o prompt elimina o “trabalho” e a dificuldade técnica do fazer, entregando um resultado pronto e polido instantaneamente, ele remove o atrito necessário que constitui a obra de arte. No entanto, teóricos modernos contestam essa visão quando aplicada à complexidade dos novos sistemas. O pesquisador Aaron Hertzmann argumenta que a arte não depende necessariamente da habilidade manual, mas sim da intenção social e comunicativa. Segundo ele, se o indivíduo usa a ferramenta com uma intenção clara de expressar uma ideia ou emoção, a autoria permanece humana, independentemente se a ferramenta é um pincel, que exige destreza motora, ou um algoritmo, que exige destreza lógica (HERTZMANN, 2018).

Para ilustrar essa mudança de paradigma, é útil lembrar o surgimento da fotografia no século XIX, que também foi acusada de não ser arte porque a máquina fazia o trabalho de capturar a realidade. Lev Manovich, teórico de mídia, aponta que a inteligência artificial traz uma revolução similar, onde a estética deixa de ser apenas sobre a criação do zero e passa a ser sobre a curadoria e a seleção dentro de um vasto oceano de possibilidades culturais (MANOVICH, 2019). Aqui, pode-se tentar reconciliar a visão de Gullar com a tecnologia: se o prompter não apenas “pede” uma imagem, mas se engaja em um processo exaustivo de iteração, correção e refinamento, ele reintroduz o “trabalho” e o “processo do fazer” na equação.

O pesquisador Jonas Oppenlaender investigou essa prática e identificou que a engenharia de prompt, quando feita em alto nível, exige habilidades específicas e um processo laborioso de tentativa e erro que se assemelha à luta do artista com a matéria, ainda que essa matéria seja código e probabilidade (OPPENLAENDER, 2022). Conclui-se, portanto, que a resposta depende da profundidade do envolvimento humano. Escrever um texto simples esperando um resultado aleatório seria, para Gullar, apenas uma facilidade sintética sem valor artístico. Porém, quando o prompter utiliza seu conhecimento para manipular as variáveis do sistema num processo longo e intencional, ele assume o papel de artista, transformando o prompt em técnica e a inteligência artificial em pincel.

Diante desse cenário, o dilema sobre onde termina o comando e onde começa a arte permanece em aberto, espelhando a própria natureza fluida e indefinível do que é artístico. A questão central é que a Inteligência Artificial não é mais uma promessa, mas uma realidade consolidada. O mundo da arte, portanto, encontra-se em um momento de transição: menos focado em resistir e mais em compreender como integrar essa avalanche de possibilidades ao seu repertório histórico.

REFERÊNCIAS

GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. Rio de Janeiro: Revan, 2007.

HERTZMANN, Aaron. Computers do not make art, people do. Communications of the ACM, Nova York, v. 61, n. 4, p. 45-48, 2018.

MANOVICH, Lev. AI Aesthetics. Moscou: Strelka Press, 2019.

OPPENLAENDER, Jonas. Prompting AI Art: An Investigation into the Creative Skill of Prompt Engineering. In: Discussion Paper. Jyväskylä: University of Jyväskylä, 2022. Disponível em: arXiv preprint arXiv:2203.06538.

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