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Cidade de Deus (2002): Por que esse filme obrigou os estrangeiros a lerem legendas?

Lançado em 2002, o filme Cidade de Deus, com direção de Fernando Meirelles e Kátia Lund, se tornou um marco, não só no Brasil, mas no cinema mundial. Mesmo sendo exibido em português, a princípio nos Estados Unidos e na Europa, o longa conseguiu quebrar aquela velha resistência que o público estrangeiro costuma ter com filmes de outros países. No fim das contas, a obra se consolidou como um dos títulos de língua não inglesa mais respeitados das últimas décadas (MEIRELLES; LUND, 2002).

Manter o idioma original, na verdade, foi muito mais que uma simples decisão estética; foi algo vital para a estrutura da história. As gírias, aquele jeito rápido de falar e a entrega dos atores — sendo que vários deles nem eram profissionais na época — trouxeram uma autenticidade absurda para o retrato da favela. Isso deixa a experiência muito mais visceral e imersiva para quem assiste.

Visualmente falando, o filme brilha com sacadas criativas que bebem da cultura pop, mas que também sabem como subverter esses conceitos. Um exemplo que todo mundo lembra é a cena do Trio Ternura: o enquadramento ali é uma paródia descarada da abertura de Charlie’s Angels (As Panteras), criando um contraste bem irônico entre aquele visual mais “leve” e a violência pesada da narrativa (MEIRELLES, 2003).

A influência de Cidade de Deus foi tão longe que saiu do nicho do cinema de autor e atingiu em cheio as grandes produções comerciais de hoje. Diretores como Ryan Coogler, por exemplo, admitem que o filme foi uma referência chave para construir os personagens e as dinâmicas sociais em Pantera Negra, o que mostra bem esse impacto global que não morre com o tempo (COOGLER, 2018).

Na parte técnica, o filme é conhecido por aquela montagem frenética — que inclusive levou o BAFTA — e por uma fotografia que não tem medo de ser “feia” ou áspera. A opção de filmar em Super 16 mm para depois ampliar para 35 mm gerou uma imagem granulada e meio instável, o que combina perfeitamente com a sensação de urgência e o caos constante da trama (CHARLONE, 2004).

Além do mais, existe uma camada quase antropológica ali, já que o filme absorve práticas reais das comunidades. Aquela cena famosa da oração antes do tiroteio, que foi improvisada por um ator que realmente tinha vivência no tráfico, mostra bem esse compromisso com a verdade social. É como se a ficção virasse um registro simbólico da própria realidade.

Mesmo sem ter levado o Oscar, Cidade de Deus acumulou tantos prêmios e elogios da crítica que se tornou um objeto de estudo obrigatório sobre violência urbana e a vida nas periferias. O fato de o filme continuar tão vivo no imaginário das pessoas só prova que ele é, sem dúvida, um clássico atemporal do cinema mundial.

Quer saber mais sobre essa superprodução que marcou época? O Nossa Vida Filmes e Séries traz os bastidores e curiosidades desse clássico imortal. Confira!

Referências

MEIRELLES, Fernando; LUND, Kátia. Cidade de Deus. Rio de Janeiro: O2 Filmes, 2002. Filme (130 min).
CHARLONE, César. A fotografia de Cidade de Deus. In: CATÁLOGO do filme Cidade de Deus. Rio de Janeiro: O2 Filmes, 2004.
MEIRELLES, Fernando. Entrevista sobre Cidade de Deus. Revista Bravo!, São Paulo, n. 63, 2003.
COOGLER, Ryan. Entrevista concedida à Variety. Los Angeles, 2018.
XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

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