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A CRISE NAS IGREJAS EVANGÉLICAS E O CRESCIMENTO DO CATOLICISMO

Já faz tempo que não falo sobre religião neste blog. Parei de trazer esse tipo de assunto porque costuma ser muito seletivo, e eu tento buscar uma galera mais do “criativo” por aqui. Ainda assim, é um tema que me traz muito apreço, já que cresci em um lar religioso (evangélico) e, mais tarde, me formei em Teologia, não para seguir carreira, mas para entender melhor esse universo que me trouxe tantos questionamentos.

Mas o que me interessa é a religião enquanto fenômeno social. Recentemente, assisti ao comentário da jornalista Anna Virgínia Balloussier (Folha de S.Paulo), repórter especializada na cobertura de religiões no Brasil e autora de O Púlpito: Fé, Poder e o Brasil dos Evangélicos. Em uma analise no canal Opinião Litoral, ela comentou uma fala do mentor cristão Evandro Morete sobre a crise nas igrejas evangélicas, organizando sua avaliação em dois blocos: a disputa intrarreligiosa (entre igrejas evangélicas) e inter-religiosa (evangélicos, outras fés e o grupo “sem religião”).

Segundo Balloussier, a disputa e a crise no meio evangélico não são novidade. A concorrência pelo chamado “mercado da fé” marca o evangelicalismo brasileiro há décadas, com a constante perda de fiéis para denominações concorrentes. Ela lembra, por exemplo, um sermão do bispo Edir Macedo em 2012, no qual ele expressava preocupação com fiéis que “pulavam de igreja em igreja”, misturando doutrinas. A grande capacidade de customização da fé, que vai de igrejas para surfistas a igrejas para metaleiros, é, ao mesmo tempo, a força e o problema do segmento: aumenta a diversidade, mas acirra a competição e incentiva dissidências.

Sobre o crescimento evangélico e a resiliência católica, Balloussier afirma que, embora os evangélicos continuem crescendo, houve desaceleração nos últimos anos.

Três fenômenos se destacam:

A resiliência católica, mesmo após uma queda histórica (de 99,7% de católicos em 1872 para 56,7% em 2022, segundo o Censo).

Conversões de evangélicos ao catolicismo, motivadas pela estrutura milenar e mais rígida da Igreja Católica, que volta a atrair pessoas em busca de sentido.

A expansão dos “sem religião”, um grupo composto por pessoas espiritualizadas, muitas vezes “desigrejadas”, que rejeitam mediação institucional e buscam uma relação direta com Deus. O discurso de Pablo Marçal, ao apresentar o cristianismo como “lifestyle”, dialoga com esse público.

Balloussier, chega à conclusão de que ainda é cedo para bater o martelo e dizer que os evangélicos estagnaram no país; o que se nota, na verdade, é uma clara desaceleração no ritmo de crescimento. Enquanto isso, o catolicismo continua sendo a religião majoritária no Brasil, representando 56% da população, conforme dados recentes do IBGE (2022).

Nesse sentido, vale mencionar um artigo da Gazeta do Povo, escrito pela jornalista Isabella de Paula em 2024.

O texto ressalta que, no cenário global, o catolicismo até registrou um crescimento recente. De acordo com o relatório que ela cita, a população católica global aumentou em cerca de 15,9 milhões de fiéis, sendo que esse aumento foi puxado principalmente por países da África e, claro, da América. É impressionante que o Brasil permaneça como o país com o maior número absoluto de católicos no mundo inteiro — isso dá mais ou menos 13% do total global, algo em torno de 182 milhões de fiéis (esses dados são de 2023).

Porém, mesmo com esse crescimento, o relatório levanta um ponto importante: existe um desequilíbrio na distribuição do clero. Ou seja, a Europa ainda concentra a maior proporção de sacerdotes, embora essa região não mostre um crescimento significativo no número de fiéis. Por outro lado, a África e a Ásia estão vendo um aumento em ambos — tanto no número de católicos quanto nas vocações sacerdotais. Dessa forma, podemos dizer que o eixo de vitalidade da Igreja parece estar se deslocando para o Hemisfério Sul.

No caso específico do Brasil, a crise que tem afetado as igrejas evangélicas parece estar ligada a fatores como a enorme proliferação de subcategorias e denominações, o envelhecimento natural da população e, além de tudo, a escassez de jovens interessados em frequentar as igrejas. É um desafio que atinge tanto as pentecostais clássicas quanto as reformadas: ambas estão enfrentando essa perda da juventude, e o problema é agravado pelo surgimento constante de novas doutrinas e subdivisões, o que acaba fragmentando ainda mais a base de fiéis.

Na minha analise, a relativização das verdades, já que diferentes igrejas apresentam “novas verdades” a cada poucos anos, contribui para a fragmentação. Em um mundo mais pragmático, muitos jovens da geração Z, que buscam coerência e rejeitam subjetividades excessivas, acabam se afastando desse cenário doutrinário confuso, enquanto os mais velhos têm dificuldade em transmitir tradições.

Além disso, a facilidade de abrir igrejas no Brasil gera desorganização no meio evangélico. Muitas lideranças surgem sem formação ou preparo teológico, somando-se a discursos políticos extremados que pouco dialogam com o cerne da fé cristã. Essa instabilidade teológica e institucional leva parte dos fiéis a se afastar ou migrar para outras tradições, entre elas, o catolicismo (Wikipedia, 2024).

Diante desse cenário complexo, percebe-se que a crise nas igrejas evangélicas fortalece o catolicismo e os grupos “sem religião” o que transforma profundamente o campo religioso brasileiro. As disputas internas, a fragmentação doutrinária, a dificuldade de renovação geracional e o excesso fragilizam os evangélicos, enquanto a Igreja Católica retoma espaço ao oferecer estabilidade institucional e tradição milenar em um tempo marcado por incertezas. Ao mesmo tempo, cresce o desejo por espiritualidade sem mediação institucional, instigando o pluralismo religioso contemporâneo. Assim, o panorama atual não aponta apenas para perdas e ganhos numéricos, mas para uma reconfiguração nas formas de expressar e buscar a fé no século XXI.

Referências

BALLOUSSIER, A. V. O púlpito: fé, poder e o Brasil dos evangélicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

DE PAULA, I. Crescimento do catolicismo no mundo é puxado por África e América. Gazeta do Povo, 2024.

IBGE. Censo Demográfico 2022: religião. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022.

WIKIPEDIA. Evangélicos no Brasil. 2024. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Evangélicos_no_Brasil. Acesso em: 12/12/2025.

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